A ocorrência de uma onda de calor deixou de ser um episódio meteorológico excecional. Num contexto marcado pelo aumento da frequência e da intensidade deste tipo de eventos extremos, as temperaturas elevadas representam hoje um desafio relevante para a saúde ocupacional e para a continuidade operacional das organizações.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as ondas de calor estão entre os fenómenos naturais mais perigosos, embora nem sempre recebam uma atenção proporcional ao seu impacto. Aliás, a instituição estima que, entre 2000 e 2019, tenham ocorrido cerca de:
Pois bem, esta realidade coloca uma questão muito concreta às empresas: como lidar com uma onda de calor sem esperar que o problema se manifeste através de dificuldades operacionais ou acidentes de trabalho?
Uma onda de calor deve ser encarada como um risco profissional?
Quando as condições meteorológicas indicam um agravamento relevante da temperatura, importa olhar para o calor como um risco com impacto direto no bem-estar dos trabalhadores e na organização do trabalho.
Na prática, a dimensão desta ameaça resulta da combinação entre vários fatores:
- Esforço físico;
- Grau de humidade relativa;
- Condições de ventilação;
- Exposição à radiação solar;
- Fontes internas de calor;
- Tipo de vestuário;
- Adequação dos equipamentos de proteção individual (EPI);
- Duração das tarefas;
- Capacidade de recuperação ao longo do dia.
Por conseguinte, duas equipas da mesma organização podem enfrentar níveis de exposição muito diferentes durante a mesma onda de calor.
Assim, uma onda de calor deve, naturalmente, ser um fator a priorizar na avaliação de riscos profissionais. Esta integração permite passar de uma resposta improvisada para uma atuação estruturada, com critérios de ativação, medidas previamente definidas, responsabilidades claras e acompanhamento das equipas.
Qual o impacto de uma onda de calor na saúde dos trabalhadores e na organização do trabalho?
As consequências das vagas de calor manifestam-se, em primeiro lugar, no organismo. A OMS salienta que a exposição ao calor extremo pode sobrecarregar o coração e os rins, agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais, metabólicas e de saúde mental, assim como aumentar o risco de desidratação, exaustão pelo calor e golpe de calor.
Além disso, esta ameaça exerce pressão na própria organização do trabalho. Durante uma onda de calor, certas tarefas podem tornar-se mais exigentes, alguns equipamentos de proteção podem gerar maior desconforto, os ritmos de trabalho podem precisar de ajustamento e determinadas atividades ao ar livre podem exigir uma reprogramação.
Que sinais devem levar a empresa a ativar medidas preventivas?
Uma organização que apenas reage quando os trabalhadores já apresentam sintomas aumenta, decerto, a probabilidade de situações críticas. Assim, a monitorização deve começar antes do pico de calor.
Os primeiros sinais surgem, então, nas previsões meteorológicas e nos avisos das autoridades competentes. Mas também há sinais internos a valorizar. Queixas repetidas de cansaço, dor de cabeça, tonturas, dificuldade de concentração, desconforto térmico, irritabilidade ou redução do desempenho podem indicar que as condições reais de trabalho já estão a afetar as equipas.
Perante esta ameaça, as empresas devem questionar:
- Esta tarefa continua a poder realizar-se com segurança nas condições atuais?
- Há alternativa de horário, método, equipa, local ou duração?
- Existem condições reais para realizar pausas e garantir o arrefecimento e a hidratação?
- Os trabalhadores têm canais de comunicação rápida em caso de mal-estar?
Como preparar a empresa antes da onda de calor?
A prevenção deve ser planeada com antecedência e ajustada à realidade laboral. De acordo com o Health and Safety Executive (HSE), os empregadores devem:
Esta orientação é particularmente relevante porque posiciona a resposta à onda de calor no âmbito da gestão preventiva, envolvendo os decisores e as equipas no desenho de soluções.
Assim, antes de uma onda de calor, a organização deve:
- Identificar tarefas realizadas ao ar livre, em espaços com pouca circulação de ar ou com esforço físico elevado;
- Mapear zonas interiores com exposição solar direta ou fontes adicionais de calor;
- Verificar sistemas de climatização, ventilação, estores, cortinas e equipamentos de arrefecimento;
- Garantir pontos de água acessíveis e locais adequados para pausas;
- Definir responsáveis internos pela ativação e comunicação das medidas de saúde ocupacional;
- Rever horários, turnos, rotas, deslocações e tarefas críticas;
- Identificar equipas e trabalhadores que possam exigir um acompanhamento mais atento (nomeadamente, por parte da equipa de Medicina do Trabalho);
- Estabelecer procedimentos em caso de indisposição ou emergência.

E o que fazer durante uma onda de calor?
Durante uma vaga de calor, a prioridade consiste em reduzir a exposição ao calor, controlar o esforço físico, garantir períodos de recuperação ao longo do turno e manter um contacto próximo com as equipas.
Importa, por isso, ponderar as seguintes medidas:
- Concentrar tarefas mais exigentes nas horas de menor calor;
- Reforçar as pausas programadas em zonas frescas e ventiladas;
- Reduzir o esforço físico nas horas críticas, sempre que a atividade o permita;
- Promover a utilização de vestuário mais leve e respirável, sempre que for compatível com os requisitos de segurança;
- Afastar postos fixos de trabalho de fontes internas de calor, se possível;
- Usar sistemas de ventilação ou climatização de forma adequada;
- Reprogramar tarefas não urgentes com maior exposição térmica;
- Reforçar a vigilância de sinais de fadiga, confusão, tonturas ou mal-estar;
- Comunicar, de forma regular, as medidas em vigor e os canais de reporte.
Como transformar a resposta às ondas de calor num procedimento interno de saúde ocupacional?
Depois de identificadas as situações de maior exposição e definidas as medidas de atuação, importa garantir que esse conhecimento não fica limitado a uma resposta pontual. A resposta deve ser convertida, portanto, em procedimentos simples e acionáveis, capazes de orientar chefias e trabalhadores sempre que as condições térmicas representem um risco para a saúde.
A atuação deve reger-se por uma lógica de níveis, ajustada à gravidade da situação:
- Num primeiro momento, privilegiar a vigilância da saúde e a comunicação interna;
- Perante o agravamento das condições, ativar medidas de reorganização do trabalho;
- Em cenários de maior risco, pode justificar-se a reprogramação de determinadas tarefas.
Assim, se pretende preparar a sua organização para responder melhor a uma onda de calor e a outros riscos profissionais, conte com o apoio especializado da Centralmed. Dispomos de um conjunto alargado de serviços de Medicina do Trabalho, desenhados para tornar a prevenção numa prática estruturada de saúde ocupacional, ajustada à realidade da sua empresa.