Que riscos de segurança deve priorizar no uso de IA no trabalho?

IA no trabalho: quais são os riscos a priorizar no uso desta tecnologia?

A integração da inteligência artificial (IA) no trabalho tem vindo a expandir-se em diferentes setores e funções. Afinal, estas tecnologias podem apoiar a tomada de decisão, automatizar tarefas, analisar grandes volumes de informação e contribuir para ganhos de eficiência. Ao mesmo tempo, a sua utilização pode alterar a organização do trabalho, a autonomia dos profissionais e a forma como determinadas decisões são tomadas, criando riscos que devem ser avaliados desde o início.

 

Nesse sentido, é imprescindível que as organizações adotem estas ferramentas de forma transparente e centrada nas pessoas, considerando o seu impacto na segurança e saúde no trabalho (SST). Além da cibersegurança e da proteção de dados, importa equacionar os riscos psicossociais e a criação de dependências excessivas em relação à tecnologia.

 

Porque é que a utilização de IA no trabalho exige uma nova abordagem à segurança?

A inteligência artificial tem vindo a exercer um impacto significativo em diversas dimensões da vida em sociedade.

No contexto laboral, as suas aplicações estão a transformar a forma como a informação é produzida, analisada e partilhada, assim como os processos de distribuição de tarefas e de apoio à tomada de decisão estratégica. Embora estas tecnologias possam trazer ganhos de eficiência e inovação, a sua implementação pode também introduzir riscos profissionais ou agravar vulnerabilidades já existentes, nomeadamente de natureza psicossocial, ergonómica e organizacional.

Por conseguinte, a adoção de IA no trabalho deve ser acompanhada por uma avaliação que considere as características da tecnologia, as condições concretas em que será utilizada, as especificidades de utilização de cada organização e os possíveis efeitos sobre os trabalhadores.

 

No domínio da cibersegurança, Hise O. Gibson, docente sénior de Administração de Empresas na Harvard Business School, sintetiza bem um dos principais desafios a priorizar:

Cada funcionalidade possibilitada pela IA pode também dar origem a um ataque. (...) Os líderes que souberem gerir bem esta realidade não conseguirão eliminar por completo estas tensões; isso é impossível. Contudo, conseguirão criar organizações capazes de funcionar eficazmente apesar destes desafios.

 

Quais são os principais riscos associados à IA no trabalho?

A utilização de IA no trabalho pode, decerto, acarretar riscos de índole tecnológica, organizacional, humana e jurídica. Com efeito, é indispensável efetuar uma avaliação específica, analisando os procedimentos de seleção, configuração, utilização e supervisão destas ferramentas.

Importa, então, considerar quatro riscos incontornáveis:

1. Exposição de informação confidencial

A introdução de dados sensíveis ou confidenciais em ferramentas de IA pode, de facto, comprometer a segurança da informação. Este risco revela-se particularmente evidente quando os trabalhadores utilizam aplicações públicas ou de terceiros, não configuradas pela organização.

Assim, sem regras claras, as organizações correm o risco de expor documentos internos, dados pessoais, informação financeira, propriedade intelectual ou dados de clientes, com possíveis repercussões jurídicas, reputacionais e operacionais.

 

2. Ciberataques potenciados pela IA

Estas tecnologias disruptivas também podem ser utilizadas por cibercriminosos, tornando os ataques mais rápidos e eficazes. Facilitam, por exemplo, a personalização de mensagens fraudulentas, a recolha de informação sobre potenciais alvos e a identificação de vulnerabilidades sistémicas, aumentando a pressão sobre os mecanismos de proteção das organizações.

Entre as utilizações maliciosas mais relevantes encontram-se a criação de campanhas de phishing mais convincentes, a produção de conteúdos falsos ou manipulados, como deepfakes, e a alteração rápida de malware para dificultar a sua deteção. Estas capacidades podem, pois, aumentar o volume e o impacto dos ataques.

 

3. Decisões baseadas em informação incorreta

A utilização de IA no trabalho pode produzir respostas incorretas ou desatualizadas, apresentando-as de forma convincente e sem sinalizar adequadamente as suas limitações.

No contexto laboral, a utilização dessa informação incorreta pode conduzir à adoção de procedimentos inadequados, a falhas na avaliação de riscos, ao incumprimento de requisitos legais ou à aplicação de medidas de prevenção insuficientes. Consequentemente, os conteúdos produzidos por estas ferramentas devem ser verificados por profissionais competentes e confrontados com fontes fiáveis e atualizadas.

 

4. Riscos psicossociais e riscos associados à ergonomia

Os riscos de segurança mais associados à utilização de IA são os riscos psicossociais e o sobre-esforço físico aliados à componente ergonómica. Por um lado, temos a intensificação do ritmo de trabalho, a redução da autonomia, o aumento da pressão ou uma perceção de vigilância. Por outro, existe um maior tempo de utilização de ecrãs, trabalho repetitivo com plataformas digitais e permanência prolongada em posição sentada.

Ademais, a sua utilização continuada tende a favorecer uma dependência excessiva da tecnologia, reduzindo a capacidade crítica e levando os profissionais a aceitar recomendações sem a necessária validação.

Por conseguinte, as organizações devem avaliar, antes e durante a implementação de sistemas de IA, os seus potenciais efeitos psicossociais, bem como o eventual agravamento dos riscos ergonómicos. Esta avaliação é particularmente relevante quando a utilização da IA é excessiva, não dispõe de validação humana adequada ou conduz à intensificação do trabalho e à redução da autonomia dos trabalhadores.

 

Como se pode, então, utilizar esta tecnologia de forma segura nas organizações?

A utilização segura da IA no trabalho requer a definição de procedimentos internos claros e o fornecimento de formação adequada. Entre as principais medidas práticas a adotar neste quadro, destacamos:

  • Avaliar os riscos associados a cada ferramenta e às tarefas afetadas;
  • Analisar os efeitos sobre a carga de trabalho, a autonomia, o ritmo de execução e a interação entre equipas e sistemas automatizados;
  • Definir políticas internas e atribuir responsabilidades pela implementação e supervisão da IA no trabalho;
  • Autorizar apenas plataformas aprovadas e configuradas pela organização;
  • Estabelecer o tipo de informação que pode ser introduzido nestas ferramentas, recorrendo, quando necessário, a técnicas de anonimização de dados;
  • Formar os trabalhadores sobre cibersegurança, proteção de dados, utilização indevida e dependência excessiva das ferramentas;
  • Criar procedimentos para comunicar e responder a erros, exposições de informação, falhas operacionais e outros incidentes;
  • Envolver os serviços de SST e os trabalhadores na identificação dos riscos e na definição das medidas preventivas adequadas.

 

 

A integração desta tecnologia exige um acompanhamento contínuo das condições de trabalho e dos efeitos de cada ferramenta. À medida que os processos evoluem, importa rever os riscos e garantir que a inovação tecnológica se rege sempre por critérios de segurança e responsabilidade, preservando a proteção dos trabalhadores e a fiabilidade operacional.

 

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